Os papa-hóstias
por Júnior Milério.
Reportagem na integra

Na missa católica, a hóstia – termo que em latim significa “vítima de sacrifício” – é oferecida aos fiéis na eucaristia como um símbolo do corpo de Jesus. Tem a forma arredondada desde o século III, numa alusão à coroa de Cristo. A exigência para a confecção da obreia, massa de farinha de trigo da qual é feita a hóstia, caberia num versículo. A especificação está no artigo 924 do Código de Direito Canônico: “O pão deve ser de trigo puro e recentemente confeccionado.”

A massa lembra a de panqueca de liquidificador. Para cada quilo de trigo, acrescenta-se 1,2 litro de água. Em tempos de catolicismo fordista, porém, o preparo é feito em grandes máquinas, e a matéria-prima é usada em quantidades industriais.

Na fábrica de João Tadeu Benatti, em Mococa, a produção mensal emprega 20 toneladas de farinha, o suficiente para fazer 15 milhões de hóstias. Benatti é um católico fervoroso de 62 anos que fabrica o item há quase duas décadas. A produção da Fábrica de Hóstias São Francisco, empresa da qual é sócio, chega a capelas do Amazonas, paróquias do Rio de Janeiro e catedrais como a da Sé, em São Paulo. O negócio é afetado pelas flutuações mundanas do mercado de commodities. “A Cristina barrou o trigo”, lamentou Benatti, referindo-se à presidente Kirchner e ao cenário instável de produção do cereal na Argentina. “Agora estou comprando farinha brasileira, mas feita com a parte nobre, o miolo do grão.”

O fabricante está familiarizado com as aplicações gastronômicas de seu produto. “Já fiz hóstia com sabor de bacon, queijo, cebola, pimenta. Mas tem que passar o patê na hora de comer, porque ela umedece rápido”, advertiu. Para um chef, a hóstia perfeita é fina e crocante, de forma a absorver menos líquido em contato com a boca. Mas a maioria dos clérigos as prefere mais grossas e firmes, para não fragmentar depois de consagrada – um pré-requisito que Benatti observa na sua fábrica. “Minha hóstia é bonita, não esfarela”, afirmou, imodesto. “Mas perfeito só Jesus Cristo.”

A linha de produção não para de segunda a sábado, entre seis da manhã e dez da noite. Ainda assim, não dá conta de atender, simultaneamente, à demanda de religiosos e gourmets – a prioridade é para a Igreja Católica. Benatti está animado com a perspectiva de ter suas hóstias consumidas pelo papa Francisco. “Três milhões de unidades foram encomendadas para a Jornada Mundial da Juventude”, anunciou, orgulhoso.